Luvas: sim ou não? Boas práticas para manusear documentos

Diana a tocar em livros sem luvas

Ouça aqui, ou na sua plataforma de podcasts favorita, o episódio #14: “Luvas: sim ou não? Boas práticas para manusear documentos”, do podcast da Conservação num Clique:

YOUTUBE | SPOTIFY | APPLE PODCASTS | AMAZON MUSIC

Uma das perguntas que mais vezes me fazem, quando falamos sobre conservação de livros e documentos, é se devemos usar luvas para os manusear e, em caso positivo, quais devemos escolher.

Durante muito tempo, o uso de luvas foi visto quase como uma regra absoluta na área do património cultural. Hoje em dia, sabemos que a resposta é mais complexa e depende muito do contexto, do tipo e estado de conservação dos documentos, e também dos eventuais riscos que possam existir para a saúde de quem os manuseia.

Neste artigo, explico quando faz sentido usar luvas, quando é preferível manusear com as mãos bem limpas e que tipo de luvas escolher, sem esquecer a questão da sustentabilidade ambiental associada a este tema, uma dimensão que é cada vez mais importante.

A regra base: mãos bem lavadas

Na verdade, em muitas situações, pode-se manusear livros e documentos simplesmente com as mãos bem lavadas, sem luvas.

Isto permite ter uma maior sensibilidade nos dedos, por exemplo quando lidamos com papel que está frágil, mas também é perfeitamente adequado para manusear livros e documentos em bom estado. Esta opção é também a mais sustentável, porque evita o uso de qualquer tipo de luvas.

Por isso, se concluir que é seguro manusear determinado livro ou documentos sem luvas, o que deve fazer é:

  • Lavar bem as mãos antes de lhe tocar;
  • Deixá-las secar completamente;
  • Remover anéis, pulseiras e relógios que possam raspar ou prender no papel.

O manuseamento sem luvas acaba por ser a melhor opção em muitas situações do dia-a-dia de alguém que lida com livros ou documentos, por exemplo para os levar de um sítio para o outro, para fazer uma consulta, para fazer inspeções visuais ou até durante o processo de digitalização de documentos que estejam limpos.

Frase do Podcast da Conservação num Clique

Quando faz sentido usar luvas?

Há contextos específicos em que o uso de luvas é recomendado, seja para proteger os livros ou documentos, seja para proteger a saúde de quem os manuseia.

1. Luvas para proteger livros e documentos

Pode-se usar por exemplo luvas de algodão para manusear documentos ou livros muito antigos, raros ou valiosos – para dar uma proteção adicional -, desde que aqueles estejam:

  • Em bom estado de conservação – por exemplo, sem bocadinhos de papel ou da encadernação a soltar-se, caso contrário essas partes frágeis podem prender-se às luvas de algodão e agravar-se os danos;
  • Sem sinais de fungos (leia aqui sobre como remover fungos de livros);
  • Sem suspeita de ter substâncias tóxicas.

Estas luvas ajudam a evitar a transferência de óleos e sujidade da pele para o material que se está a manusear.

No entanto, é importante ter noção das desvantagens das luvas de algodão. Por exemplo:

  • Reduzem significativamente a sensibilidade das mãos;
  • Não oferecem boa aderência a superfícies muito lisas – há livros que mais facilmente podem escorregar das mãos;
  • Absorvem facilmente substâncias químicas, que podem depois passar para a pele das nossas mãos.

A grande vantagem das luvas de algodão – que recomendo que sejam sempre brancas, como estas – é que podem ser lavadas (sempre com sabão neutro) e podem ser reutilizadas quantas vezes se quiser, sendo por isso uma opção amiga do ambiente.

2. Luvas para proteger também a saúde

Quando existe risco para a saúde, o uso de luvas é indispensável. Isto aplica-se a situações como:

  • Documentos com suspeita de terem fungos;
  • Acervos muito sujos, com grande acumulação de ;
  • Materiais que possam conter substâncias tóxicas.

Nestes casos, deve-se utilizar luvas de nitrilo ou luvas de látex, sem pó, sobretudo para nossa proteção pessoal.

Num trabalho que realizei há alguns anos numa Universidade, higienizei um acervo onde existia a suspeita de presença de DDT, um inseticida usado desde a década de 1940 e posteriormente identificado como prejudicial à saúde.

Apesar de os documentos estarem relativamente em bom estado, manuseei-os sempre com luvas de nitrilo, máscara, óculos de proteção e fato protetor, fazendo a higienização usando uma Hotte, que ia fazendo a extração do ar. Mas mesmo que estes documentos não tivessem DDT, como estava a fazer um trabalho de limpeza, iria sempre usar luvas de nitrilo ou latex, para evitar que a sujidade se entranhasse na minha pele.

Portanto, mesmo quando é necessário limpar livros e documentos que apresentam apenas pó acumulado, também é uma boa prática usar luvas de nitrilo ou látex, porque ajuda a evitar que o pó se entranhe na nossa pele, concedendo-nos uma camada extra de proteção.

Tipos de luvas: vantagens e limitações

Luvas de nitrilo

As luvas de nitrilo são finas, leves e permitem ter alguma sensibilidade nos dedos. Estão disponíveis com ou sem pó, em versões estéreis ou não estéreis, e são amplamente usadas na área do património cultural devido à sua versatilidade e custo acessível.

Preferencialmente, deve optar-se pelo uso de luvas de nitrilo sem pó, para não haver risco de o pó presente nas luvas passar para os documentos que estão a ser manuseados.

Luvas de látex

As luvas de látex, feitas de borracha de látex natural ou sintético, são finas e leves. Oferecem uma boa proteção contra cetonas, como a acetona. No entanto:

  • Apresentam baixa resistência a óleos e alguns solventes;
  • Podem causar reações alérgicas em algumas pessoas.

O látex natural é biodegradável, portanto degrada-se mais rapidamente do que o látex sintético. Mas estas luvas continuam a ser pensadas para uso único, o que, tal como no caso das luvas de nitrilo, as torna numa opção pouco sustentável em termos ambientais.

Luvas de algodão

Em relação às luvas de algodão, são feitas de fibras naturais de algodão mas têm várias desvantagens:

  • retiram muito a sensibilidade nos dedos,
  • os livros podem escorregar mais facilmente das nossas mãos,
  • áreas que estejam a escamar podem agarrar-se às luvas,
  • e o próprio algodão pode absorver substâncias químicas indesejáveis.

A sua principal vantagem é poderem ser lavadas e reutilizadas, sendo uma alternativa ambientalmente mais sustentável.

Limpeza de documento com luvas de látex
Limpeza de documento com luvas de látex

A dimensão ambiental do uso de luvas

O impacto ambiental das luvas é um tema que merece cada vez mais atenção.

As luvas descartáveis de nitrilo e látex não são facilmente recicláveis na maioria dos países, incluindo em Portugal.

Existem empresas especializadas, como a TerraCycle, que recolhem e reciclam este tipo de resíduos em alguns países. Há também alguns fabricantes de luvas que criaram programas de devolução, nos quais os materiais das luvas podem ser usados para se fazer novos produtos (por exemplo bancos de jardim). Mas estas iniciativas, infelizmente, não estão disponíveis em todo o lado.

Se por acaso conhecer alguma iniciativa deste tipo em Portugal, por favor partilhe nos comentários, porque é informação muito preciosa.

Como tornar o uso de luvas mais sustentável

O que se recomenda, para ajudar a reduzir a pegada ambiental, é tentar usar luvas de nitrilo biodegradáveis ou luvas de látex natural, que também são biodegradáveis. É importante ver as características das luvas na embalagem para ajudar a escolher – veja neste guia do ICON como ler a informação nas embalagens das luvas. 

Sei que a marca SHOWA produz luvas de nitrilo biodegradáveis, que se degradam mais rapidamente do que as luvas normais em aterros, e já foram testadas relativamente à compatibilidade para se usar com património cultural.

Outra forma de reduzir a pegada ambiental é reutilizar as luvas sempre que possível, se estiverem em boas condições.

Mas a opção mais sustentável é mesmo não usar luvas ou, pelo menos, reduzir o uso de luvas, evitar usá-las quando não é realmente necessário. 

Resumindo, estas são algumas das estratégias que se pode implementar para minimizar o impacto ambiental: 

  • Evitar usar de luvas, sempre que possível;
  • Se se tiver de usar luvas, sempre que possível escolher luvas biodegradáveis;
  • Organizar as tarefas diárias de forma a permitir reutilizar as luvas que se está a usar;
  • Evitar trocar frequentemente de luvas, se não houver necessidade;
  • Lavar e reutilizar luvas sempre que o material o permita.

Concluindo

Não existe uma resposta única à pergunta se devemos ou não usar luvas para manusear livros e documentos. De forma geral, deve seguir-se as seguintes recomendações:

  • Mãos lavadas e secas devem ser a regra;
  • Luvas de algodão podem ser usadas em casos específicos;
  • Luvas de nitrilo ou látex são essenciais quando há risco para a saúde;
  • Reduzir e reutilizar as luvas é fundamental para minimizar o impacto ambiental.

Decisões informadas ajudam-nos a proteger não só as coleções que temos a nosso cuidado, mas também a nossa saúde e o nosso planeta!

Veja aqui algumas opções de luvas de algodão, de nitrilo e de látex.

E se quiser conhecer mais dicas úteis que pode aplicar para conservar coleções em papel, assista à aula GRATUITA onde falo sobre alguns dos meus materiais favoritos, incluindo ferramentas de limpeza, instrumentos para pequenas reparações e material para acondicionamento de livros e documentos. Assista aqui.

Capa do podcast da Conservação num Clique, com Diana Bencatel a pegar em dois pesos

10 Materiais para reparar danos em papel

Descarregue gratuitamente esta checklist e descubra quais são os materiais ESSENCIAIS para reparar danos frequentes em papel (e onde os adquirir). Contribua decisivamente para melhorar o estado de conservação de livros e documentos!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *