Ouça na sua plataforma de podcasts favorita o episódio #17: “O (trabalho) que se faz nos bastidores de uma biblioteca)”, do podcast da Conservação num Clique:
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O que acontece aos livros de uma biblioteca depois de passarem pelas mãos de dezenas (ou até centenas) de leitores?
No mais recente episódio do podcast da Conservação num Clique, Diana Bencatel tem como convidada Constança Marafona, Técnica Profissional de Bibliotecas, Arquivo e Documentação na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, na Póvoa de Varzim, onde trabalha há cerca de 30 anos.

Ao longo da conversa, Constança partilhou a sua experiência profissional e revelou algum do trabalho que faz diariamente no contexto de uma biblioteca pública, desde o tratamento técnico dos livros até pequenas reparações que prolongam a vida do acervo.
Mais do que um espaço de leitura, uma biblioteca é também um lugar onde acontece muito trabalho invisível!
Muito mais do que emprestar livros
Para quem frequenta uma biblioteca pública, a experiência costuma limitar-se à consulta ou requisição de livros.

No entanto, por trás das estantes existe um conjunto de tarefas técnicas essenciais para que tudo funcione.
Como explica Constança Marafona, o trabalho numa biblioteca envolve várias etapas:
- Catalogação de livros;
- Classificação e cotagem;
- Colocação de etiquetas RFID (identificação por radiofrequência);
- Organização e arrumação dos livros nas estantes;
- Atendimento ao público;
- Tratamento de espólios oferecidos à biblioteca.
Sobre as etiquetas RFID, utilizadas atualmente em muitas bibliotecas, Constança explica que se trata de um sistema que permite identificar os livros automaticamente através de sinais de rádio, facilitando a gestão e localização dos mesmos.
Além disso, uma parte importante do trabalho passa pelo tratamento de espólios doados. Este processo inclui várias fases: inventário, limpeza, separação por tipologia e ainda ações básicas de conservação.
Tudo isto acontece antes de muitos livros chegarem sequer às mãos dos leitores.
Como chegam os livros à biblioteca?
Ao contrário do que muitos leitores imaginam, os livros não chegam automaticamente às bibliotecas assim que são publicados.
Na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, a aquisição dos livros depende de vários fatores, incluindo o orçamento disponível e as decisões da equipa técnica: “Quando sai um livro novo, as pessoas pensam que nós compramos logo. Mas não. Antes tem que ir à central de compras e tem que ver se há verba.”
Os próprios leitores podem sugerir aquisições. Quando isso acontece, a sugestão é analisada pela equipa técnica e pela coordenação da biblioteca, que decide se faz sentido incluir o livro na coleção.
Além das novas aquisições, muitas bibliotecas também recebem livros oferecidos por particulares. Mas nem todos podem ser integrados na coleção. Se um título já existir em duplicado ou triplicado, por exemplo, a biblioteca pode optar por não o aceitar.
Outro desafio comum é o espaço físico, como Constança partilhou com humor: “Muitas bibliotecas estão literalmente pelas costuras.”
Os danos mais comuns que aparecem nos livros
Quando se fala de conservação em bibliotecas públicas, é inevitável falar também dos danos que aparecem com o uso corrente dos livros.
Segundo a Constança, um dos problemas mais frequentes que encontra são livros descolados.
Isto acontece sobretudo em livros mais recentes que, no processo de produção, são muitas vezes colados em vez de cosidos.
Com o tempo, a cola deste livros torna-se rígida e perde aderência, fazendo com que as páginas se soltem: “Hoje em dia temos aqueles livros que são compostos por folhas, não por cadernos. A cola que é posta na editora ou é muito fraca, ou acaba por secar.”
Na biblioteca onde trabalha, alguns fatores ambientais também contribuem para este problema, nomeadamente por a biblioteca ter muitos vidros e clarabóias.
No entanto, em vez de descartar estes livros descolados, a Constança recupera-os. O processo inclui:
- Separar as páginas folha a folha;
- Remover cuidadosamente os restos de cola antiga;
- Aplicar nova cola para unir novamente o miolo do livro;
- Voltar a colar o miolo à capa.
Para livros mais recentes utiliza cola branca adequada para conservação (PVA), enquanto para livros mais antigos prefere utilizar metilcelulose. Segundo a própria, os resultados têm sido positivos: “Às vezes vou pegar em livros que já colei há uns anos atrás e estão direitinhos.”
Livros infantis: menos problemas do que se imagina
Curiosamente, os livros infantis não são os que aparecem mais danificados.
Apesar de serem muito utilizados, Constança afirma que os problemas costumam ser relativamente simples de resolver, como por exemplo linhas de costura que se soltaram, pequenas rasgadelas nas páginas e tentativas de reparação feitas em casa.
A última situação é particularmente comum, e nem sempre é feita da melhor forma (muito devido à falta de conhecimento), mesmo que seja feita com a melhor das intenções.
Por isso, Constança pede frequentemente aos colegas que transmitam uma mensagem simples aos leitores: “Se um livro se estragar, não tentem reparar em casa com fita-cola comum, basta avisar a biblioteca.”


O “bom desgaste” de um livro
Nem todos os sinais de uso são negativos.
Durante a conversa, Constança refere algo curioso: é possível perceber facilmente quais são os livros mais lidos numa biblioteca, sendo bem notória a diferença entre os livros que são muito utilizados e aqueles que são pouco lidos.
Os livros mais requisitados acabam por apresentar sinais naturais de uso: capas gastas, cantos ligeiramente dobrados ou páginas mais manuseadas. Mas, como diz Constança: “Nota-se que há ali um desgaste, mas é um bom desgaste.”
Afinal, o objetivo de um livro numa biblioteca é precisamente esse: ser lido.
Pequenos gestos fazem diferença
Mesmo assim, alguns cuidados simples podem ajudar a prolongar a vida dos livros. Durante o episódio, Diana Bencatel lembrou algumas boas práticas básicas de manuseamento:
- Não molhar os dedos com saliva para virar páginas;
- Não dobrar os cantos das folhas para marcar páginas;
- Evitar colar post-its durante muito tempo;
- Retirar corretamente os livros das estantes.
Pequenos gestos podem parecer inofensivos, mas quando um livro é utilizado por muitas pessoas, os efeitos (alguns dele negativos) vão-se acumulando com o tempo.
>> Descarregue aqui o “Guia de cuidados essenciais para cuidar de livros”, um guia gratuito onde Diana Bencatel partilha dicas preciosas sobre como manusear e guardar livros de forma segura.
A oficina “Cuidar dos Livros”
Para sensibilizar leitores e partilhar conhecimentos, Constança dinamiza na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto uma oficina chamada “Cuidar dos Livros”.
A iniciativa surgiu de forma quase espontânea. Inicialmente, Constança fazia pequenas demonstrações do seu trabalho durante visitas técnicas à biblioteca. Com o tempo, essas demonstrações evoluíram para uma atividade prática.

Nesta oficina, que é realizada algumas vezes por ano, os participantes aprendem a:
- Limpar livros corretamente;
- Identificar materiais adequados para pequenas reparações;
- Descolar e voltar a colar livros modernos;
- Criar caixas de proteção para guardar livros.
A abordagem é sobretudo prática, e por isso cada sessão tem poucos participantes (normalmente seis pessoas) para permitir um acompanhamento individual e personalizado.
Entre os participantes encontram-se leitores curiosos, profissionais de bibliotecas, estudantes e pessoas que simplesmente querem cuidar melhor dos livros que têm em casa.

Desastres que afetaram a Biblioteca
Além dos desafios comuns do dia-a-dia, as bibliotecas também podem enfrentar situações mais graves.
Na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto já houve episódios de incêndio e várias inundações. Num dos casos, a água da chuva entrou rapidamente no depósito da biblioteca, e a equipa teve de agir rapidamente para salvar os livros. Utilizaram métodos simples mas eficazes:
- Papel absorvente entre as páginas;
- Ventoinhas;
- Desumidificadores;
- Substituição regular do papel para acelerar a secagem.
Graças à dedicação da equipa e ao trabalho intenso, conseguiram recuperar grande parte da coleção. Hoje, como medida preventiva, os livros já não são colocados nas prateleiras mais baixas.
Leia o artigo “O que salvar primeiro num Museu, Arquivo ou Biblioteca?”, que inclui estratégias sobre como agir em caso de emergência num museu, arquivo ou biblioteca.
Uma paixão que se constrói ao longo do tempo
Depois de 30 anos de trabalho na biblioteca, Constança continua a falar do seu trabalho com entusiasmo e muito carinho.
Para ela, a conservação tornou-se uma verdadeira paixão: “Tiro fotografias do antes e do depois e penso: consegui fazer um bom trabalho.”
E acredita que a partilha de conhecimento é fundamental para preservar melhor os livros.
Se gostou do resumo da conversa com a Constança Marafona, recomendo muito que ouça o episódio completo no Youtube ou na sua plataforma de podcasts favorita.
Consulte também a página da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, onde são partilhadas as diversas atividades que por lá acontecem.
Costuma frequentar bibliotecas públicas? Que cuidados tem com os livros que lê e requisita?
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