Os super fungos que estão a destruir coleções

Livro com fungos

Ouça aqui, ou na sua plataforma de podcasts favorita, o episódio #18: “Os super fungos que estão a destruir coleções”, do podcast da Conservação num Clique:

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Manter os ambientes com níveis de humidade relativa mais baixos é, há muito tempo, considerada uma das principais estratégias para proteger coleções de fungos. Mas, e se essa estratégia já não funcionar para travar o desenvolvimento de todos os fungos?

Neste artigo, vamos explorar um tipo de fungos ainda pouco falado (mas potencialmente devastador), que está a desafiar as práticas estabelecidas na conservação do património cultural: os fungos xerófilos.

O que são fungos xerófilos?

Os fungos xerófilos são microrganismos capazes de se desenvolver em ambientes com níveis muito baixos de humidade. O nome vem do grego, e significa literalmente “amante do seco”.

Isto torna estes fungos particularmente preocupantes em locais como museus, arquivos, bibliotecas e outros espaços onde se procura manter a humidade relativa baixa, precisamente para se evitar o crescimento de fungos.

Ao contrário da maioria dos fungos (que necessitam de ambientes húmidos), os xerófilos conseguem crescer mesmo quando a água disponível é mínima.

Objetos de museu com fungos xerófilos
Chapéus em exibição no Roskilde Museum na Dinamarca, com presença de fungos xerófilos (fonte: Scientific American)

Como é que estes fungos conseguem sobreviver em ambientes secos?

Uma das características mais impressionantes deste tipo de fungos é a sua capacidade de criar condições favoráveis à sua própria sobrevivência.

Um exemplo curioso é o Aspergillus halophilicus, uma espécie que consegue captar a humidade do ar através de cristais de sal presentes no ambiente. Ao produzir um polímero rico em sal, cria uma espécie de microambiente húmido à sua volta.

Na prática, isto significa que, mesmo quando tudo à sua volta está seco, o fungo consegue gerar as condições necessárias para sobreviver.

Além disso, há outros fatores que favorecem o seu desenvolvimento:

  • Presença de poeira (que funciona como fonte de nutrientes);
  • Ambientes pouco ventilados;
  • Sistemas de armazenamento fechados ou herméticos;
  • Alterações climáticas que afetam temperatura e humidade.

Que materiais podem ser afetados?

Na verdade, praticamente todos. Os fungos xerófilos conseguem colonizar uma grande variedade de materiais comuns em coleções:

  • Papel e pergaminho
  • Madeira
  • Telas e pinturas
  • Tecidos e tapeçarias
  • Colas, vernizes e pigmentos orgânicos

Também podem crescer em superfícies como vidro, mármore e paredes, utilizando os nutrientes presentes no pó acumulado.

Ao desenvolverem-se, podem alterar o ambiente químico à sua volta e produzir ácidos ou cristais minerais que causam manchas, fissuras, descamação ou degradação estrutural dos materiais.

Frase do podcast da Conservação num Clique

Casos reais que mostram a dimensão do problema

Este fenómeno não é apenas teórico. Já existem vários casos documentados um pouco por todo o mundo.

Um deles envolve um auto-retrato de Leonardo da Vinci, onde manchas castanhas visíveis há décadas foram recentemente atribuídas a fungos xerófilos que atuaram durante mais de 70 anos sem serem identificados.

Outro exemplo é o túmulo de Tutankhamon, no Egipto, onde manchas escuras nas paredes foram associadas a este tipo de fungos.

Na Catedral de Santa Sofia, em Kiev, frescos do século XI começaram a apresentar manchas e perda de material devido à presença destes microrganismos.

E na Bibliotheca Angelica, em Itália, foram identificados pontos brancos em manuscritos e encadernações antigas, também causados por fungos xerófilos.

Porque é que estes fungos são tão difíceis de detetar?

Um dos maiores desafios para identificar a presença de fungos xerófilos prende-se com o fato de estes fungos escaparem aos métodos tradicionais de análise laboratorial. 

Os testes laboratoriais convencionais utilizam meios de cultura com elevada humidade, que são ideais para fungos comuns, mas não para fungos xerófilos.

Como resultado, estes microrganismos podem não crescer nos testes, e passam assim despercebidos.

Só com condições laboratoriais específicas (com baixa disponibilidade de água) é possível identificá-los corretamente. No entanto, estes testes são raros e mais complexos de realizar.

O que se pode fazer para controlar estes fungos?

Perante a presença de fungos xerófilos, as opções de tratamento são limitadas, e muitas vezes são também arriscadas para os próprios objetos.

Métodos utilizados no passado, como biocidas fortes (por exemplo, formaldeído) ou antibióticos podem causar danos adicionais e até favorecer o aparecimento de microrganismos ainda mais resistentes.

Outras abordagens incluem:

  • Fumigação
  • Radiação gama (com risco de danificar materiais)
  • Controlo ambiental mais rigoroso

Atualmente, as recomendações mais seguras passam por medidas preventivas e de mitigação:

  • Colocar objetos contaminados em quarentena
  • Limpar cuidadosamente as superfícies (por exemplo, com aspirador) – saiba aqui como limpar fungos
  • Aplicar etanol (quando não há risco de danificar os objetos)
  • Promover a circulação de ar
  • Evitar ambientes excessivamente fechados ou herméticos
Documento com presença de fungos
Documento antigo com presença de fungos (não xerófilos)

O tabu institucional relativamente à presença de fungos

Apesar da gravidade do problema, existe ainda alguma resistência em falar abertamente sobre infestações de fungos, nomeadamente em muitos museus. 

Em muitos casos, as instituições evitam divulgar estas situações por receio do impacto que podem causar na sua reputação, ou até mesmo dificultar o empréstimo de obras entre instituições.

No entanto, esta falta de transparência pode dificultar a compreensão da verdadeira dimensão do problema, e atrasar ainda mais o desenvolvimento de soluções eficazes.

Neste sentido, a comunidade de profissionais do património cultural beneficiaria, a todos os níveis, de uma abordagem mais aberta e colaborativa neste assunto.

Os fungos xerófilos desafiam uma das ideias mais enraizadas na área da conservação: a de que ambientes mais secos são suficientes para proteger as coleções.

A realidade é na verdade mais complexa do que se pensou durante décadas, e estar informado é o primeiro passo para proteger melhor o património que temos a nosso cuidado!

E por aí, já tinha ouvido falar nesta espécie de fungos? Partilhe comigo nos comentários!

Se este tema lhe interessar, ouça também o episódio #1: 4 passos para acabar com fungos em livros.

Artigo original onde li sobre este tema: “The hidden threat eating away at museum treasures”.

Capa do podcast da Conservação num Clique, com Diana Bencatel a pegar em dois pesos

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