Limpar sem estragar: truques para higienizar documentos de forma segura

Limpar documento com pincel comprido

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Limpar documentos em papel parece, à partida, uma tarefa simples. No entanto, quem trabalha em arquivos, bibliotecas e museus sabe que uma limpeza mal feita pode causar danos irreversíveis.

Neste artigo vou explicar como pode higienizar documentos de forma segura, com base em boas práticas que fazem toda a diferença na sua preservação a longo prazo.

Vou também partilhar erros a evitar e pequenas decisões que todos podemos tomar e que ajudam a proteger os documentos que estão ao nosso cuidado.

Higienizar antes de digitalizar

A realidade de muitas instituições passa pela implementação de projetos de digitalização do património documental. Para isso, é fundamental a limpeza dos documentos folha a folha, antes de serem digitalizados.

Esta limpeza não serve apenas para melhorar a qualidade das imagens digitais criadas, sendo também uma oportunidade para remover sujidade acumulada ao longo de décadas, contribuindo para a preservação a longo prazo dos documentos.

É também uma importante medida de proteção dos scanners , evitando que sujidade e partículas de pó fiquem depositados nesses equipamentos de digitalização.

Manuseamento: o primeiro cuidado essencial

Muitas vezes, os acervos documentais possuem os mais variados documentos: uns mais recentes e outros mais antigos, papéis frágeis e outros mais resistentes, acumulado na superfície, manchas de foxing, marcas de ferrugem de agrafos ou clipes, ou sinais da presença de fungos.

Para prevenir alguns problemas, um dos cuidados mais simples e importantes que podemos ter é manusear os documentos com luvas – neste caso recomendo usar luvas de nitrilo.

As luvas ajudam a proteger os documentos da gordura e da sujidade natural das nossas mãos, enquanto nos protegem também a nós do pó e de eventuais fungos ou outras substâncias potencialmente nocivas para a saúde.

Mas ter o cuidado de usar luvas, por si só, não chega.

Preparar o espaço de trabalho

A higienização deve ser feita num espaço próprio, pensado especificamente para esta tarefa.

Deve-se:

  • Utilizar uma mesa exclusiva para a limpeza dos documentos, e que esteja afastada de scanners, computadores ou impressoras.
  • Optar por uma superfície clara, que permita ver facilmente a sujidade que está a ser removida. Se a mesa for escura, pode ser revestida com cartolina branca.
  • Separar fisicamente as áreas: uma mesa para higienizar e outra para colocar documentos já limpos e prontos para digitalização.
  • Não usar a mesa de higienização para mais nada — nada de telemóveis, malas, comida ou café.

Estas regras simples ajudam a controlar melhor o ambiente e a evitar contaminações cruzadas.

Sempre que há suspeita de fungos ou bolor, é também muito importante arejar o espaço com frequência. Em alguns contextos, um purificador de ar pode fazer uma diferença significativa na qualidade do ar dentro da sala.

Ferramentas adequadas fazem toda a diferença

Para a limpeza de documentos em papel, sempre que possível deve optar-se por métodos de limpeza a seco.

Algumas das ferramentas mais simples que recomendo usar são:

  • Bons pincéis e trinchas, que podem ser adquiridos junto de fornecedores de material de conservação e em algumas papelarias;
  • Smoke Sponge, uma esponja específica para conservação, muito eficaz na remoção de sujidade mais entranhada;
  • Panos de micro-fibras e de algodão brancos. 

Conheça neste artigo outros materiais para limpeza de livros e documentos que gosto de usar.

Ferramentas de limpeza de documentos em papel

Como limpar documentos de forma segura?

Quando os documentos apresentam pó na superfície, o pincel, a trincha ou o pano são quase sempre o primeiro passo. A limpeza deve ser feita com movimentos suaves, afastando a sujidade presente no documento na direção contrária à pessoa que está a limpar.

Este método é também útil quando existem vestígios de fungos inativos. Muitas vezes, o que permanece à superfície é um pó seco que é facilmente removido. Porém, as manchas deixadas pelos fungos vão continuar visíveis, pois o dano já está feito e não é reversível sem tratamento especializado – que, se for realmente necessário, deve ser realizado apenas por um Conservador-restaurador de documentos gráficos.

Quando o pincel ou o pano não são suficientes, a Smoke Sponge pode ajudar a remover alguma da sujidade mais entranhada que permanece no papel. Em alguns casos, pode-se até conseguir remover quase totalmente certas manchas.

Mas, um aviso importante: a Smoke Sponge nunca deve ser usada em documentos com anotações a lápis, pois pode apagá-las.

Quanto às manchas de foxing, por vezes é possível atenuá-las ligeiramente, mas não devemos esperar milagres. Na maioria dos casos, estas manchas não desaparecem.

Atenção às dobras, cantos e zonas esquecidas

As dobras, muito comuns sobretudo nos cantos dos documentos, são zonas onde se acumula muita sujidade.

Sempre que for seguro para o documento, vale a pena desdobrar cuidadosamente essa parte do documento, usando uma dobradeira e Melinex (como ensino a fazer no curso de Reparação de Danos em Livros e Documentos), e limpar essa área.

Em livros e maços de documentos com muitas folhas, a limpeza deve ser feita folha a folha, frente e verso.

Pode dar trabalho, mas há uma razão simples: o verso de uma folha está sempre em contacto com a frente da folha seguinte. Limpar apenas um lado deixa sujidade em contacto direto com o lado da folha que já foi limpo.

No caso dos livros, não esquecer também a lombada, sobretudo quando é oca, onde a sujidade tende a acumular-se.

Uma técnica simples é bater suavemente com o livro aberto, na vertical, sobre a mesa, para soltar as partículas acumuladas. Quando necessário, esta zona pode ser aspirada com uma ponteira adequada, usando um aspirador de sucção regulável, como o aspirador Museu.

Limpeza do espaço e das ferramentas de limpeza

A higienização não termina nos documentos.

No final de cada dia de trabalho, é importante:

  • Aspirar a mesa e o chão à volta com um aspirador com filtro HEPA, em vez de apenas passar um pano.
  • (Opcional) Limpar a mesa com um spray antifúngico e antibacteriano, preferencialmente colocado numa folha de papel em vez de diretamente na mesa.
  • Lavar os pincéis, trinchas e panos com água e detergente suave. Depois de lavados, deixar secar bem, durante vários dias – deve-se colocar os pincéis idealmente na vertical, para evitar acumulação de humidade na zona central do pincel.

Quando não limpar é a melhor decisão

Apesar da importância da limpeza, há documentos demasiado frágeis para serem manuseados, mesmo com o máximo de cuidado.

Nesses casos, a decisão mais segura pode passar por não limpar, mas sim acondicionar de forma mais cuidada, evitando que acumulem mais sujidade. Cada documento deve ser avaliado caso a caso.

Pequenas decisões, grande impacto

Limpar documentos de forma segura não é “só passar um pano”. É preparar o espaço, escolher as ferramentas certas, e saber quando devemos prosseguir com a limpeza, ou quando devemos delegar essa tarefa para profissionais mais qualificados.

São estas pequenas decisões, somadas, que fazem a diferença entre coleções que se degradam silenciosamente e coleções que são cuidadas com intenção de serem preservadas, em bom estado de conservação, a longo prazo.

Cuidar dos documentos é, acima de tudo, um ato de responsabilidade para com o património que nos foi confiado.

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A limpeza de documentos em papel faz parte da sua rotina de trabalho? Partilhe nos comentários a sua experiência!

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