O que salvar primeiro num Museu, Arquivo ou Biblioteca?

Documentos danificados

Ouça aqui, ou na sua plataforma de podcasts favorita, o episódio #11: “O que salvar primeiro num Museu, Arquivo ou Biblioteca”, do podcast da Conservação num Clique:

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Nunca é demais lembrar que, quando está em causa a preservação de coleções em Museus, Arquivos ou Bibliotecas, é muito importante estarmos preparados para eventuais desastres que possam ocorrer.

Algo fundamental a incluir na preparação para cenários deste tipo é a decisão sobre o que salvar primeiro em situações de emergência.

Este pode parecer um tema distante e que não faz parte do nosso quotidiano. Mas a verdade é que desastres acontecem, e acontecem mais vezes do que gostaríamos de admitir. E quando ocorrem, o futuro das coleções depende das escolhas que fizermos antes e durante o desastre.

Quando o imprevisto se torna realidade

Infelizmente, é frequente acontecerem um pouco por todo o mundo desastres que colocam em risco património cultural.

Eis alguns exemplos dos últimos anos:

  • Museu Nacional do Brasil, 2018: um curto-circuito num ar-condicionado desencadeou um incêndio devastador, agravado por falhas elétricas, degradação estrutural e ausência de medidas eficazes de prevenção.
  • Catedral de Notre Dame (França), 2019: um incêndio cuja origem nunca foi confirmada, mas que se desconfia ter estado relacionado com falhas elétricas.
  • Valência (Espanha), 2024: uma tempestade repentina deixou a cidade submersa em minutos, provocando perdas humanas e danos significativos em património público e privado.

E nem precisamos de considerar cenários tão catastróficos. Basta um cano rebentar, uma torneira ficar a pingar durante um dia inteiro, o vento que levanta parte do telhado durante uma tempestade. Tudo isto pode colocar coleções em risco.

Por isso, não devemos questionar se algum dia algum desastre irá acontecer, mas sim “O que vamos fazer quando acontecer?”.

Documentos que sobreviveram a um incêndio devastador no Porto, com manchas provocadas pelo fogo e pela humidade e fungos
Documentos que sobreviveram a um incêndio devastador no Porto

Planos que salvam

Para estarmos minimamente preparados em caso de desastre ou emergência, existem dois documentos que é muito importante elaborar: o Plano de Segurança e o Plano de Conservação Preventiva.

Plano de Segurança

Muita gente vê o Plano de Segurança meramente como uma exigência legal e burocrática. Para mim, é uma ferramenta prática que pode salvar vidas, tempo e património.

O Plano de Segurança é um documento que deve ser criado antes de qualquer desastre, com calma. Porque durante uma emergência é muito difícil tomar decisões acertadas de improviso.

O Plano de Segurança deve incluir:

  • Potenciais riscos internos e externos: infiltrações, falhas elétricas, vandalismo, incêndios, cheias, tempestades, sismos, etc.
  • Procedimentos de resposta a cada tipo de incidente.
  • Indicação de quem faz o quê, para onde ir e quem contactar.

Por exemplo, num Museu com quem colaboro, o Plano de Segurança inclui medidas concretas para lidar com as seguintes situações: incêndio, sismo, fortes tempestades, cheias ou infiltrações, roubo ou vandalismo, ameaça terrorista, emergência médica e derrame de combustível.

É importante lembrar que o Plano de Segurança só é verdadeiramente eficaz se for do conhecimento de todos os envolvidos, incluindo as equipas internas, prestadores de serviços e até mesmo visitantes.

Plano de Conservação Preventiva

O Plano de Conservação Preventiva apoia-se no Plano de Segurança e acrescenta-lhe uma parte essencial: a definição das prioridades de salvamento no que se refere à coleção.

É aqui que surge a pergunta: “Em caso de emergência, o que tentamos salvar primeiro?”.

E digo tentamos porque nem sempre será possível salvar tudo. Mas se tivermos de escolher, é importante existir um critério — e isso deve ser definido previamente, sempre que possível.

A escolha dos objetos da coleção que é prioritário salvar deve ser feita por uma equipa multidisciplinar que envolva por exemplo curadores, conservadores, direção/chefias e responsáveis pela segurança do edifício, sendo que deve ter em conta uma análise do valor dos objetos, nomeadamente:

  • Valor histórico
  • Valor patrimonial
  • Raridade
  • Importância artística
  • Valor monetário
  • Significado para a identidade do museu ou da comunidade

Após identificar os objetos com mais “valor”, temos então os chamados “tesouros” da coleção — os objetos que, em caso de emergência, merecem prioridade de salvamento.

O Plano de Conservação Preventiva deve, então, incluir:

  • uma lista dos “tesouros” da coleção, com fotografias e identificação completa;
  • rotas de saída possíveis;
  • a localização de cada “tesouro” assinalada na planta do edifício;
  • instruções rápidas de ação;
  • quem contactar para ajudar a mover determinado objeto;
  • equipamento necessário;
  • cuidados especiais a ter.

Quando a teoria se torna realidade

Deixe-me partilhar um caso real: num Museu com o qual colaboro, os três “tesouros” já estão identificados.

No entanto, um deles é um camião. Que não funciona. Existe um portão por onde pode sair , mas se tivermos apenas cinco minutos para evacuação, o salvamento deste tesouro é simplesmente impossível.

Felizmente os outros dois “tesouros”, embora pesados, são mais móveis – um deles é um carro, que funciona e é fácil de empurrar, e o outro é um equipamento pesado mas que se encontra num suporte com rodinhas.

Portanto, mesmo tendo noção do que é mais valioso, há coisas que conseguiremos salvar e outras que podemos não conseguir.

Para conseguirmos salvar o máximo de objetos possível, é muito importante que esta preparação teórica seja complementada com preparação prática e simulacros.

"Nunca vamos ter tudo controlado ao milímetro - mas podemos estar preparados.". Citação de Diana Bencatel no episódio do podcast da Conservação num Clique sobre o que salvar primeiro num Museu, Arquivo ou Biblioteca.

Os Planos nunca estão “fechados”

A Conservação Preventiva não é um trabalho estático, mas sim um processo contínuo. Por isso, qualquer Plano que se elabore deve ser:

  • Revisto regularmente (por exemplo uma vez por ano ou a cada dois anos);
  • Atualizado quando surgem novos riscos ou novas medidas que ajudem a proteger/salvar a coleção, por exemplo;
  • Relembrado sempre que há mudanças na equipa, no edifício ou na coleção.

Por onde começar?

Mesmo que a instituição onde trabalha não tenha um destes planos, está sempre a tempo de começar. Não esperem pelo “momento certo”, porque poderá ser tarde demais.

Sugiro que sigam os seguintes passos:

  1. Identificar os “tesouros” da coleção
  2. Criar ou rever o Plano de Segurança: envolver quem for preciso e garantir que toda a equipa conhece este plano.
  3. Elaborar ou rever o Plano de Conservação Preventiva: mesmo que inicialmente seja uma versão simples, já é um começo!

Se quiser aprofundar este tema, recomendo vivamente que leia o Guia de Gestão de Riscos para o Património Museológico, do ICCROM, disponível online gratuitamente e em português. Descarregue-o aqui.

Dica: Ferramentas de Inteligência Artificial (IA) como o ChatGPT podem ajudar a estruturar uma primeira versão destes documentos e até criar listas de perguntas às quais devemos responder para criar os Planos. Use a IA para ajudar neste processo, alimentando-a com informação sobre a sua instituição, a coleção, recursos disponíveis, etc.. Quando melhor for a informação e quanto mais precisas foram as instruções que lhe dá, melhores resultados terá. Depois, é trabalhar sobre a base que a IA criar.

Preparar hoje para preservar amanhã

Apesar de ser impossível controlar tudo, a verdade é que, quanto mais preparados estivermos e com as prioridades bem assentes, menores serão os danos e maiores serão as hipóteses de salvar aquilo que definimos.

Espero que este artigo tenha sido um bom ponto de partida para refletir sobre estas questões e, quem sabe, motivar a sua equipa a começar a elaborar ou a rever estes planos!

Se achou útil, partilhe este artigo com alguém que trabalhe num Museu, Arquivo ou Biblioteca. Acredite, pode fazer toda a diferença.

Capa do podcast da Conservação num Clique, com Diana Bencatel a pegar em dois pesos

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