Um dia no Museu com a Conservadora Diana Bencatel

Diana Bencatel no museu onde trabalha

Ouça aqui, ou na sua plataforma de podcasts favorita, o episódio “#10: Um dia no Museu com a Conservadora Diana Bencatel” do podcast da Conservação num Clique:

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Hoje vou partilhar consigo algo um bocadinho diferente: vou contar-lhe como é um dos meus dias de trabalho no Museu onde sou Conservadora de Coleções há mais de uma década. 

Nem todos os meus dias são exatamente iguais ao que vou partilhar, mas este vai ser um exemplo de um dia de trabalho que inclui algumas das coisas que costumo fazer com mais regularidade. 

Vamos a isso?

Chegar, preparar e começar a trabalhar

O Museu onde trabalho é um Museu automóvel, privado e relativamente pequeno. Não está numa zona de grande passagem ou movimentações, e abre ao público apenas por marcação. Resultado? Passo muitas manhãs ali sozinhasó eu e as coleções.

E é exatamente assim que eu gosto! O ambiente é calmo, só se ouvem os automóveis a passar lá fora e, em dias de tempestade, a chuva e o vento criam aquele som reconfortante que me faz sentir em casa.

A minha rotina começa sempre da mesma forma: a lavar bem as mãos logo que chego ao Museu. Quem trabalha com coleções sabe que este hábito é muito importante, porque tocamos em muitos objetos e documentos, e é importante assegurar que não passamos nenhuma sujidade para esses materiais.

Uma das primeiras tarefas do meu dia costuma ser colocar as baterias dos automóveis a carregar.

Como deve imaginar, viaturas antigas precisam de manutenção regular, e eu abracei a missão de não deixar avariar as baterias dos automóveis que estão sob o meu cuidado.

Depois de pôr umas luvas de nitrilo (sem pó) – quer para não deixar manchas nos automóveis, quer para não sujar as minhas mãos -, ligo os carregadores e registo a hora em que o carregamento começou. Por uma questão de segurança (caso aconteça algum curto-circuito, por exemplo), as baterias só carregam enquanto estou no Museu.

Falando em segurança, aproveito para partilhar uma dica que considero ser bastante útil: em Museus, Arquivos e Bibliotecas, embora possa haver diversos tipos de extintores adequados aos diversos tipos de materiais e riscos existentes, em caso de incêndio sempre que possível deve dar-se preferência ao uso de extintores de CO₂, em vez dos que contêm pó químico.

O pó químico é altamente corrosivo e causa danos graves nos materiais, o que dificulta o trabalho de recuperação posterior. Claro que, em situações mais graves, tem de se usar o extintor que estiver disponível mas, havendo escolha, o ideal é optar por extintores de CO₂.

Imagem com uma citação do episódio do podcast da Conservação num Clique a que este artigo diz respeito. A citação diz: "Gosto muito de estar ali, só eu e as coleções. Não preciso de mais nada."

Conservação em ação

Depois de colocar as baterias a carregar, sento-me ao computador para responder a e-mails mais urgentes. Depois, começa o trabalho prático!

A grande tarefa que tenho em mãos neste momento é a limpeza de dezenas de documentos de grandes dimensões que sobreviveram a um incêndio.

Muitos destes documentos chegaram ao Museu com danos causados pelo calor, pelo fogo, pela água utilizada pelos bombeiros para apagar o fogo e com manchas de bolor.

Eu já tinha feito uma limpeza prévia aos documentos antes de serem levados para o Museu, mas agora estou a fazer uma higienização mais profunda, utilizando para isso um aspirador Museu (igual a este), equipado com filtro HEPA.

Antes de começar, coloco sempre equipamento de proteção individual: bata, luvas de nitrilo, máscara e capas para sapatos como estasassim protejo-me a mim e aos documentos.

No bocal do aspirador prendo uma rede, para garantir que nenhum fragmento de papel é aspirado por engano. E depois começo a aspirar cuidadosamente os documentos, frente e verso, sempre na mesma direção. É um trabalho fisicamente muito exigente, mas também muito gratificante.

Quando termino, assinalo os documentos que já estão higienizados, limpo e lavo as escovas do aspirador, tiro o equipamento de proteção e desinfeto as mãos com álcool.

Monitorização e outras rotinas essenciais

Uma vez por mês, faço também a verificação das armadilhas para insetos que estão espalhadas pelo Museu e nas Reservas.

Esta é também uma excelente oportunidade para circular por todos os espaços e identificar anomalias que requeiram intervenções pontuais – por exemplo uma lâmpada fundida, uma infiltração, uma zona que precisa de uma limpeza mais profunda, etc. Vou anotando tudo para que nada fique esquecido, e para que possa transmitir a informação às pessoas responsáveis por essas tarefas.

Antes de dar por terminada a minha manhã de trabalho no Museu, desligo todas as baterias dos automóveis que estiveram a carregar, faço o registo dos tempos de carregamento de cada uma, confirmo se as luzes estão apagadas e se não há água a correr nos WC. Só depois sigo para casa descansada.

Armadilha para insetos da PELtrap com inseto no interior
Armadilha para insetos com um inseto visível no interior

Tarefas fora do Museu

A minha tarde é normalmente dedicada a trabalho no computador: e-mails, edição de fotografias, inventário, atualização de documentos (como o Plano de Conservação Preventiva, Relatórios, etc.), leitura de artigos científicos relacionados com o trabalho de Conservação que estou a fazer, entre outras coisas.

Dedico sempre parte da minha tarde à Conservação num Clique, por exemplo a preparar aulas, responder a alunos, ter reuniões e escrever conteúdos. Tudo isso até chegar a hora de ir buscar a minha filha. Quando ela chega ao pé de mim, passa a ser o meu foco, o bem mais precioso que quero preservar.

Em casa, faço questão de desligar a Internet para evitar pensar em trabalho. Percebi que esta disciplina para mim é essencial para aproveitar ao máximo o tempo em família e conseguir descomprimir.

E por aí, como é o seu dia de trabalho?

Gostava muito de saber como é a sua rotina de trabalho. Quais são as tarefas que mais gosta? E as que menos gosta?

Partilhe comigo mais abaixo nos comentários, ou envie-me uma mensagem pelo Facebook ou Instagram da Conservação num Clique. Vou adorar saber como é o seu dia!

Capa do podcast da Conservação num Clique, com Diana Bencatel a pegar em dois pesos

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